Óleo básico é o líquido que forma a maior parte de um lubrificante; os aditivos, em menor quantidade, dão a função final. Ele vem do refino do petróleo ou de síntese química, e a API (American Petroleum Institute, instituto americano do petróleo) o divide em cinco grupos, do I ao V, por três medidas: saturados, enxofre e índice de viscosidade. Para escolher: em lubrificante, decide o grupo (II e III para estabilidade e vida longa); em borracha, tinta e adesivo, decide a família química: parafínica, naftênica ou aromática.

Pense na farinha de um pão. Ela é quase toda a massa e decide a textura; fermento e sal entram em pouca quantidade e mudam o resultado, mas não consertam uma farinha ruim. No lubrificante, o óleo básico é a farinha e os aditivos são o fermento. As três medidas da API dizem como essa farinha se comporta: saturados são moléculas sem ligações duplas nem anéis aromáticos, que resistem melhor ao oxigênio; o enxofre é um resto do petróleo que mostra quanto o refino limpou a base; o índice de viscosidade mostra quanto o óleo afina no calor e engrossa no frio (quanto maior o número, menos ele muda).

Qual óleo básico usar em cada aplicação?

Comece pelo que a sua fábrica produz. Quem formula lubrificante de alto desempenho escolhe pela estabilidade, e aí entram os Grupos II e III. Quem fabrica borracha, tinta, adesivo ou fibra têxtil escolhe pela família química: parafínica, naftênica ou aromática. A tabela resume o boletim técnico de cada linha de óleos básicos para formuladores e indústria química.

Se na sua fábrica você…UsePor quê
Formula óleo de motor de alto desempenho ou de baixa viscosidadeHBP-E (Grupo III+, nome de mercado do Grupo III de índice mais alto) ou linha HBP-S (Grupo III)Índice de viscosidade alto e baixa volatilidade (perde pouco óleo por evaporação no calor)
Formula lubrificante industrial, óleo hidráulico, fluido de transmissão, óleo de turbina ou graxalinha HBP-I (Grupo II)Hidrorrefinada (tratada com hidrogênio): menos enxofre e aromáticos, mais estabilidade à oxidação e ponto de fulgor elevado (a temperatura em que o vapor do óleo se inflama por um instante quando uma chama passa perto)
Fabrica artefato de borracha, trata fibra têxtil, faz tinta base óleo, amaciante de couro ou protetivo temporário, ou precisa de um óleo sem aditivolinha HBP (parafínica)Parafínicos de primeiro refino (feitos direto do petróleo, sem óleo rerrefinado), feitos para plastificar (amolecer) e estender (aumentar o volume do composto) elastômeros, as borrachas, e para servir de base a óleos e graxas
Fabrica borracha de cor clara, adesivo, lubrificante para baixa temperatura ou fluido de corte solúvellinha HBN (naftênica)Escorre no frio (ponto de fluidez baixo) e se mistura bem a borrachas
Fabrica pneu ou composto de elastômero que pede um meio-termo entre parafínico e naftênicoHPN (base mista)Mistura de básicos de primeiro refino, com composição intermediária entre parafínico e naftênico
Fabrica borracha escura, como polibutadieno (BR) e estireno-butadieno (SBR), ou tinta gráficaHBA (aromática)Óleo aromático derivado do resíduo do petróleo, usado como extensor e plastificante

Cada linha tem vários graus, do mais fino ao mais viscoso. O grau sai da viscosidade que a sua formulação pede, e a Equipe Técnica Kelpen Oil confere a escolha no boletim do grau.

Como é feito o óleo básico?

O óleo básico mineral é feito separando as frações pesadas do petróleo e tirando delas o que oxida e o que endurece no frio. São cinco etapas, e o jeito de fazer a limpeza (com solvente ou com hidrogênio) decide o grupo:

  1. Destilação atmosférica. O petróleo aquecido se separa pela temperatura de ebulição: gás, gasolina, querosene e diesel saem pelo topo e pelas retiradas laterais da torre, e no fundo da torre sobra um líquido pesado, o resíduo atmosférico.

  2. Destilação a vácuo. Com a pressão baixa, esse resíduo ferve a uma temperatura menor, sem se decompor. Saem os cortes de óleo, separados pela faixa de ebulição, o que dá viscosidades diferentes (o spindle, mais fino, e os neutros leve, médio e pesado), e sobra o resíduo de vácuo.

  3. Desasfaltação. Um solvente (propano) separa o asfalto do resíduo de vácuo e recupera o óleo desasfaltado, muito viscoso, que dá origem ao bright stock, o óleo básico mais viscoso do refino, usado em óleos de engrenagem e de máquinas lentas e pesadas.

  4. Remoção dos aromáticos, as moléculas em anel que baixam o índice de viscosidade e, quando oxidam, escurecem o óleo e formam borra (depósito pastoso de óleo oxidado). Na rota a solvente, eles são extraídos e saem como extrato aromático. Na rota com hidrogênio, o hidrotratamento ou o hidrocraqueamento (hidrogênio, catalisador, pressão e temperatura) transforma os aromáticos em saturados e retira enxofre e nitrogênio na forma de gás, o que leva a uma base mais estável.

  5. Remoção da cera, as moléculas lineares que cristalizam no frio e turvam o óleo. Na rota a solvente, a cera se cristaliza a frio e sai como parafina. Na rota com hidrogênio, a desparafinação catalítica, em geral por isomerização (o rearranjo da molécula linear em ramificada, sem mudar o tamanho dela), transforma a cera em isoparafina, uma molécula ramificada que continua líquida no frio.

No fim, a rota a solvente dá o Grupo I. A rota com hidrogênio dá, em geral, o Grupo II quando o tratamento é moderado e o Grupo III quando é severo, com índice de viscosidade de 120 ou mais. Um acabamento com hidrogênio (hidroacabamento) pode entrar nas duas rotas para clarear e estabilizar a base.

Como isso aparece na sua fábrica: a rota deixa sinais visíveis. Básico de Grupo II e III é quase incolor, o de Grupo I vai de claro a âmbar conforme o corte e o aromático é escuro. Cera que ficou no óleo aparece como turvação ou depósito esbranquiçado no tambor em dia frio. E, no equipamento que trabalha quente, a base com mais aromáticos escurece e forma borra mais cedo, o que encurta o intervalo de troca.

Do petróleo ao óleo básico: as etapas do refino e onde cada grupo se separa óleo que segue no processo o que sai em cada etapa Petróleo cru 1. Destilação atmosférica sai: gás, gasolina, querosene e diesel resíduo atmosférico 2. Destilação a vácuo cortes de óleo: spindle e neutros leve, médio e pesado resíduo de vácuo 3. Desasfaltação sai: asfalto óleo desasfaltado Rota a solvente Rota com hidrogênio 4. Extração dos aromáticos sai: extrato aromático 4. Hidrotratamento ou hidrocraqueamento sai: enxofre e nitrogênio (como gás) 5. Desparafinação a solvente sai: cera (parafina) 5. Desparafinação catalítica a cera vira isoparafina Grupo I Grupo II tratamento moderado Grupo III e III+ tratamento severo Outras bases Naftênico: vem de petróleo naftênico, com pouca cera, e em geral dispensa a etapa 5. Grupo IV (PAO): feito por síntese química, a partir de moléculas pequenas. Grupo V: todas as demais bases, como ésteres, PAG (sintético à base de glicol) e silicones.

Figura 1. Do petróleo ao óleo básico: as cinco etapas do refino e onde se separam os Grupos I, II e III. Cada corte segue em separado pelas etapas 4 e 5; as setas vermelhas mostram o que sai em cada etapa, e o naftênico e os Grupos IV e V seguem outro caminho.

Quais são os grupos de óleo básico?

São cinco na classificação da API: os Grupos I, II e III são minerais e se separam por saturados, enxofre e índice de viscosidade; o Grupo IV é a polialfaolefina (PAO), um sintético; o Grupo V reúne todas as outras bases.

GrupoComo é feitoSaturados (% em massa)Enxofre (% em massa)Índice de viscosidade
IRota a solventeAbaixo de 90Acima de 0,03De 80 a menos de 120
IIRota com hidrogênio, tratamento moderado90 ou maisAté 0,03De 80 a menos de 120
IIIRota com hidrogênio, tratamento severo ou isomerização de cera90 ou maisAté 0,03120 ou mais
IVSíntese química: PAO, montada a partir de moléculas pequenasDefinido pela química, sem limite numérico
VTodas as demais: ésteres (feitos de ácido e álcool), PAG (polialquilenoglicol, sintético feito de óxido de etileno e de propileno), silicones, naftênicos e outrasTudo o que não cabe nos Grupos I a IV

Pela API, para ser Grupo I basta um dos dois critérios químicos ficar fora: saturados abaixo de 90% ou enxofre acima de 0,03%. Grupo III+ é um nome de mercado, sem definição na API nem na ANP, para o Grupo III de índice de viscosidade mais alto e menor perda por evaporação, obtido com hidrocraqueamento e isomerização de cera mais severos. Na tabela oficial ele continua sendo Grupo III. Onde a troca do Grupo I pelo II compensa, e onde não compensa, está no artigo sobre o óleo básico Grupo 2.

No Brasil, quem regula a venda de óleo básico é a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), pela Resolução nº 911/2022. Ela usa os mesmos valores-limite da API para os Grupos I, II e III e mantém uma classe à parte, o naftênico, definida pela origem da base: o petróleo que deu origem a ela precisa ser naftênico ou intermediário. Isso se mede pelo fator KUOP, um número calculado pelo método de ensaio UOP 375 que indica se o petróleo tende a parafínico ou a naftênico (quanto maior o número, mais parafínico é o petróleo); a classe naftênica pede KUOP maior que 10 e menor que 12,5. Na tabela da API, o naftênico costuma cair no Grupo V, porque o índice de viscosidade dele fica abaixo de 80.

No rótulo de um lubrificante pronto, a palavra sintético costuma indicar base de Grupo III, IV ou V; mineral indica Grupo I, II ou naftênico.

Qual a diferença entre óleo básico e óleo lubrificante?

O óleo básico é a matéria-prima; o óleo lubrificante é o produto pronto, feito de óleo básico com um pacote de aditivos escolhido para a máquina. Os aditivos mais comuns, segundo a ANP, são detergentes, dispersantes, antioxidantes, antiespumantes, melhoradores do índice de viscosidade e abaixadores do ponto de fluidez. A graxa segue a mesma lógica: um espessante, em geral um sabão metálico, disperso no óleo básico.

Cada parte responde por uma coisa:

  • A base decide quanto o óleo resiste ao oxigênio e ao calor, quanto evapora, como se comporta no frio e quanto dissolve aditivo e borracha.

  • O aditivo decide a função específica: proteger contra desgaste, aguentar a carga entre dentes de engrenagem, manter o motor limpo, quebrar a espuma.

Por isso dois óleos hidráulicos com o mesmo grau de viscosidade e o mesmo aditivo podem durar tempos diferentes na mesma máquina: a diferença está na base. O melhorador do índice de viscosidade compensa parte de uma base de índice baixo, mas é um polímero que pode se quebrar com o cisalhamento (o esforço de corte que o óleo sofre entre peças em movimento), e aí a viscosidade cai com o uso.

Para que serve o óleo básico?

Serve para fabricar lubrificantes e graxas e, sem aditivo, como matéria-prima de outras indústrias. Os boletins das linhas HBP, HBN, HPN e HBA registram estes usos:

  • borracha e pneus, como plastificante e extensor (óleos que amolecem o composto e facilitam o processamento);

  • tintas base óleo, tintas gráficas e adesivos;

  • tratamento de fibras têxteis e amaciantes de couro;

  • protetivos temporários e fluidos de corte solúveis;

  • vaselina, pastas desmoldantes e matéria-prima de produtos agrícolas.

Nesses usos quem decide é a família química, lida na composição de carbono (a porcentagem do carbono que está em cadeias parafínicas, em anéis naftênicos e em anéis aromáticos): parafínica (cadeias lineares e ramificadas, estável), naftênica (anéis saturados, escorre no frio e se mistura bem à borracha clara) ou aromática (anéis aromáticos, com alto poder de dissolver, para borracha escura). Como escolher entre as três pela composição de carbono e pelo ponto de anilina (ensaio que mede o poder de dissolver da base) está no artigo óleo parafínico, naftênico ou aromático.

O que é feito com o óleo lubrificante usado?

Ele deve ser coletado e rerrefinado. A Resolução CONAMA nº 362/2005, do Conselho Nacional do Meio Ambiente, obriga que todo óleo usado coletado vá para o rerrefino, que o transforma de novo em óleo básico; queimar ou incinerar o óleo usado não conta como reciclagem nem como destino adequado.

O rerrefino passa o óleo usado por etapas parecidas com as do refino para tirar água, combustível, metais, aditivos gastos e produtos da oxidação. Segundo o panorama da ANP publicado em 2023, os básicos rerrefinados respondem por cerca de 20% dos básicos usados no país. A Resolução ANP nº 911/2022 especifica o Grupo I rerrefinado numa tabela própria, separada da tabela dos básicos de primeiro refino (os que vêm direto do petróleo).

Para saber o que você compra, olhe os documentos: toda carga de óleo básico vendida no Brasil precisa vir com certificado de qualidade legível, e a nota fiscal indica o código ANP do produto e o número desse certificado. As linhas HBP, HBP-I, HBN e HPN da Kelpen Oil são de primeiro refino, como registram os boletins.

Como a Kelpen Oil confere cada lote de óleo básico?

Cada lote é analisado no laboratório próprio em Arujá (SP) e sai com laudo técnico; um resultado fora da faixa impede o lote de sair da planta. O critério da Equipe Técnica Kelpen Oil é conferir o lote por medida, nunca pelo nome do produto ou só pela viscosidade: dois básicos com o mesmo grau podem ser de grupos ou famílias diferentes, e o índice de viscosidade e a composição de carbono mostram essa diferença. As normas da tabela são métodos de ensaio publicados pela ASTM (entidade americana de normas técnicas) e pela ABNT, a associação brasileira, cujas normas levam a sigla NBR.

O que medimosO que revelaNorma e equipamento
Viscosidade a 40 °C e a 100 °CO grau do básico e os dois pontos que entram no cálculo do índice de viscosidadeASTM D7042, viscosímetro SVM 4001
Índice de viscosidadeQuanto a viscosidade muda com a temperatura; separa o Grupo III (120 ou mais) dos Grupos I e IINBR 14358, SVM 4001
Composição de carbono (CA, CN, CP)A porcentagem de carbono aromático, naftênico e parafínico: a família da base e quanto aromático sobrou do refinoASTM D2140 e D3238, com índice de refração (quanto a luz desvia ao atravessar o óleo) no refratômetro Abbemat 350 e densidade e viscosidade no SVM 4001
Teor de enxofreNas bases com enxofre alto, como a aromática e o Grupo I, confere a repetição do padrão de lote para lote; o método foi feito para elementos de aditivo e não decide o grupoFluorescência de raios X, ASTM D6481
Ponto de anilinaO poder de dissolver (solvência): quanto mais baixo, mais a base dissolve borracha e aditivoASTM D611
Ponto de fluidezA menor temperatura em que o óleo ainda escorre; denuncia cera que ficou na baseNBR 11349
CorO grau de refino e a repetição do padrão de lote para loteNBR 14483
Espectro de infravermelhoA assinatura química do lote, comparada com o padrão do produtoComparação com o padrão, com base na ASTM E2412

O teor de saturados, o terceiro critério da API, tem método próprio (ASTM D2007) e não está entre os 25 ensaios do laboratório. Por isso o grupo das linhas HBP-I (Grupo II), HBP-S (Grupo III) e HBP-E (Grupo III+) é o que o boletim de cada uma registra; nas linhas escolhidas pela família (HBP, HBN, HPN e HBA), a composição de carbono e o ponto de anilina conferem o lote. A lista completa, com norma e equipamento, está no artigo sobre os ensaios do laboratório de lubrificantes.

Perguntas frequentes

Óleo básico pode ser usado puro, sem aditivo? Pode, onde a máquina ou o processo não pede aditivo. Os boletins indicam graus da linha HBN para compressores de ar alternativos (de pistão) de baixa temperatura de descarga do ar, exceto os de refrigeração, e para mancais banhados a óleo, sistemas circulatórios e caixas de engrenagens que não exigem óleo aditivado, sempre quando o fabricante do equipamento indicar.

O que é óleo neutro? É o nome de mercado dos cortes parafínicos que saem da destilação a vácuo e depois são refinados; leve, médio e pesado indicam a viscosidade, e o spindle é o corte mais fino. A sigla SN (solvent neutral) marca o neutro refinado a solvente, e o número, como em SN 150, é a viscosidade aproximada em segundos Saybolt (SUS, unidade antiga que mede a viscosidade pelo tempo que o óleo leva para escoar por um orifício) a 100 °F, ou 37,8 °C.

O Brasil produz óleo básico Grupo III? Segundo o panorama da ANP de 2023, o país produz só básicos dos Grupos I e II e naftênicos. O Grupo III usado aqui é importado, assim como grande parte do básico consumido no Brasil.

Glossário

  • Saturados: moléculas de hidrocarboneto sem ligações duplas nem anéis aromáticos, mais resistentes ao oxigênio.

  • Índice de viscosidade (IV): número que mostra quanto a viscosidade muda com a temperatura; quanto maior, menos o óleo muda.

  • Hidrorrefino: tratamento com hidrogênio, catalisador, pressão e temperatura que transforma aromáticos em saturados e retira enxofre e nitrogênio.

  • Desparafinação: etapa que tira a cera ou a transforma em isoparafina, para o óleo não endurecer no frio.

  • Extrato aromático: a fração rica em aromáticos retirada na rota a solvente, usada como óleo de processo para borracha.

  • Ponto de anilina: temperatura em que volumes iguais de óleo e anilina se misturam por completo; indica o poder de dissolver da base.

  • PAO (polialfaolefina): base sintética do Grupo IV, montada por síntese química.

  • Rerrefino: processo que transforma óleo lubrificante usado de novo em óleo básico.

Fale com a Equipe Técnica

A Equipe Técnica Kelpen Oil avalia o que a sua formulação ou o seu processo exige (estabilidade, solvência, comportamento no frio, viscosidade e cor) e confirma o óleo básico adequado. Se você quer conferir um básico que já comprou, ou se o óleo já está em uso, o laboratório de Arujá (SP) faz a análise do óleo, como serviço pago: viscosidade, índice de viscosidade, cor, composição de carbono e ponto de anilina estão entre os 25 ensaios da lista. Salve este artigo ou envie para quem compra matéria-prima na sua empresa.